quarta-feira, 19 de outubro de 2011


A Sabedoria de Mia Couto:


Com toda a sabedoria da velha África, Mia Couto revela-nos, uma vez mais - na ironia, no sentido de humor, no espírito crítico, na palavra cáustica e no comentário acerado, no recurso à metáfora e na carga cheia de simbolismo da frase -, o seu absoluto domínio da escrita e da língua portuguesas, o conhecimento e o amor profundos que tem e dedica a esse belíssimo e atormentado continente, neste novo romance, O Último Voo do Flamingo.

O autor sabe como ninguém manejar seu discurso literário ora fantástico, ora poético, ora divertido e irônico:

"Há aqueles que nascem com defeito. Eu nasci por defeito. Explico: no meu parto não me extraíram todo, por inteiro. Parte de mim ficou lá, grudada nas entranhas de minha mãe. Tanto isso aconteceu que ela não me alcançava ver: olhava e não me enxergava. Essa parte de mim que estava nela me roubava de sua visão. Ela não se conformava:
- Sou cega de si, mas hei-de encontrar modos de lhe ver!
A vida é assim: peixe vivo, mas só vive no correr da água. Quem quer prender esse peixe tem que o matar. Só assim o possui em mão. Falo de tempo, falo de água. Os filhos se parecem com água andante, o irrecuperável curso do tempo. Um rio tem data de nascimento?"
 

Para falar de uma vila onde “acontecimento era coisa que nunca sucedia”, e que só “os factos são sobrenaturais”, Mia Couto parece tomado por um encantamento pela linguagem. Ele mistura num as culturas tradicionais africanas e a cultura ocidental, o português “colonizador” com as variantes dialetais da população moçambicana – há um glossário no final do livro.

Outros ingredientes são o uso de aforismos, desconstrução de provérbios e ditos populares (“contra os factos tudo são argumentos”). Mia Couto "desarranja" a linguagem, em muitos momentos a aproximar-se de Guimarães Rosa ("o motor nhenhenhou-se") ou, mesmo, da sintaxe do poeta Manoel de Barros, já na parte final do romance ("as sujidades se definitivam"), e da qual emerge a relação profunda entre o homem e a terra.

A tangência das margens do realismo fantástico latino-americano ou, como sugere Mia Couto, o "realismo animista", na expressão do angolano Pepetela. Há Temporina, com o rosto de velha e corpo de moça (mas que, em "flagrante de amor, juvenescia"); uma tia que, após morta, se transforma em louva-a-deus; um personagem que, quando toca em mulher, suas mãos aquecem até ficarem como “carvão aceso”; outro que, ao dormir, pendura os próprios ossos fora do corpo; determinados feitiços que faziam com que os enfeitiçados emagrecessem até ficarem do tamanho de formiga. Diante desses acontecimentos, resta ao italiano Massimo Risi, entre uma perplexidade e outra, temer pela veracidade do relatório que terá de entregar a seus superiores ("na capital, a sede da missão da ONU espera por notícias concretas, explicações plausíveis. E o que tinha ele esclarecido? Uma meia dúzia de estórias delirantes").

Às vezes, na obra, predomina o sarcasmo, às vezes o espírito crítico, outras vezes ambos. Quando, por exemplo, um pênis decepado é achado, chamam a prostituta Ana Deusqueira para “identificar o todo pela parte”. Ou, em outra cena, o administrador relata: “Na véspera de cada visita, nós todos, administradores, recebíamos a urgência: era preciso esconder os habitantes, varrer toda aquela pobreza”. Mais ironia: contratado para traduzir, o próprio tradutor é desnecessário. Quando ele se apresenta ao italiano, este comenta: “Eu posso falar e entender. Problema não é a língua. O que eu não entendo é esse mundo daqui”.

A narrativa é poética, carregada de lirismo. Entre várias seqüências, percebemos aquela em que Massimo Risi passa por um terreno minado como “Jesus se deslocou sobre as águas”. Podemos também acompanhar a mãe do tradutor desfiando a estória dos flamingos que empurravam o sol para que o dia chegasse ao outro lado do mundo.

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